Três Aplausos Para A Mesopotâmia!
Hoje é o primeiro dia em que estarei indo à floresta com
meus próprios pés. Hoje, estou deixando minha sacola e a lousa em casa. Em vez
disso, eu tenho uma cesta de madeira nas costas como todo mundo (embora a minha
seja menor), contendo uma pá que eu vou usar para cavar a terra. Não consigo
deixar de pensar em uma espátula de madeira quando olho essa pá, porém. Sendo
perfeitamente sincera, acho que essa espátula será ainda menos eficaz na
escavação real do que aquelas pequenas pás de plástico que crianças usam na
caixa de areia. Ninguém mais vê isso?
Enquanto eu brando a pá, que absolutamente parece que vai
quebrar na hora, meu pai me agarra firmemente pelo ombro. Ele me vira para
encará-lo, e começa a me dar a mesma palestra que ele esteve constantemente
dando desde que decidimos que eu poderia ir a floresta.
“Maine. Tudo o que você vai fazer hoje é ir à floresta, e
depois voltar. Todo mundo vai ter muitas coisas a carregar na volta, e eles vão
estar cansados. Eu quero que você descanse enquanto estiver lá fora para ter
energia suficiente para voltar com eles por si mesma. Compreendido?”
“Deixa comigo!”
O rosto do meu pai fica muito sério por um momento, embora
eu não possa dizer se é apenas por causa da minha resposta em si ou porque
alguma das minhas frustrações ao ser contada isso inúmeras vezes podem estar
começando a transbordar. Ele se vira para Tory.
“Tory,” ele diz, “isso pode ser difícil, então estou
contando com você. Por favor converse com Lutz para ter certeza que ele sabe
que a Maine precisará voltar antes dos portões fecharem.”
“Tudo bem. Hoje vamos ter certeza de sair mais cedo,” ela
responde.
Tory já tem um senso de responsabilidade transbordante, mas
quando ela ouve o pedido do meu pai, seu senso de dever também brilha
intensamente. Hoje, ela parece um pouco mais estrita do que o habitual.
Pela hora em que saímos, já haviam outras crianças reunidas
perto do poço, caixas e cestas presas às costas também. Há um total de oito de
nós, desde crianças pequenas como eu que não começaram realmente a crescer até
crianças mais velhas como a Tory e a Fey, que são um pouco maiores e mais
fortes. Fey lidera o caminho com seu cabelo rosa enquanto Tory traz a
retaguarda. Quanto a mim, vou começar na frente com Fey, mas pelo momento em
que chegarmos ao nosso destino eu já terei caido mais ou menos para a
retaguarda.
“Tudo bem, Maine. Vamos! Não diminua a velocidade, okay? ”
Eu posso estar acostumada a caminhar até os portões por
agora, mas esta é a minha primeira vez indo o caminho inteiro até a floresta.
Assim, Lutz estará definindo o ritmo para mim. Nos últimos três meses enquanto
caminhando entre os portões e minha casa, Lutz esteve gradualmente descobrindo
quais são os limites maiores da minha velocidade de caminhada. É graças a ele
que nós estamos indo a uma velocidade que é tão rápida quanto eu posso ir confortavelmente.
“Obrigada, Lutz,” eu digo.
“Não, obrigado, Maine, você tem sido uma grande ajuda
também,” ele responde.
No outro dia, tivemos que terminar os últimos dos restos do
último paru espremido. Parece que o paru, que aparentemente só pode ser colhido
durante o inverno, fica ruim muito rapidamente quando o tempo começa a
esquentar. Então, em agradecimento por tudo que eles fizeram por mim até agora,
eu modifiquei a receita dos hambúrgueres de coalhada de feijão e os ensinei a
fazer paruburgers.
Eu fiz um molho a partir de ferver uma espécie de fruta
chamada “pomay”. De primeira vista parece um pimentão amarelo, mas tem uma
consistência e sabor muito parecidos com os de tomate por dentro. Para terminar
o prato, derreti o queijo por cima. A suave doçura do paru adicionou um
inesperado sabor profundo ao prato. Fiquei um pouco chocada eu mesma, e fui eu
que fiz!
Aliás, Lutz literalmente começou a chorar mais cedo, e seus irmãos mais velhos seguiram o exemplo.
Eles parecem ter ficado profundamente comovidos pelo fato de eu ter conseguido
dobrar a quantidade de comida deliciosa que eles podiam comer durante o
inverno. Carla, a mãe deles, agradeceu-me do fundo do coração pela facilidade
que meu estilo de culinária dá as finanças da família. Ter que alimentar quatro
filhos deve ser extremamente duro. A lei de Engel é absolutamente assassina
quando você está no lado baixo da escala, não é?
“Maine, por que você não nos contou sobre paruburgers durante
o inverno ?!” Lutz reclama.
“Bem, se você quer picar carne, tem que estar muito fresco,
sabe? Além disso, picar carne é realmente difícil, e eu não tinha certeza se
seria capaz de convencer todos a me ajudar...”
“Ahhh, sim, é difícil, mas teríamos feito pelo bem da sua
culinária!”
Eu completamente falto a força necessária para trabalhar uma
faca por tempo suficiente para realmente picar carne, e não havia maneira da
minha mãe concordar em fazer algo tão difícil, então até agora não tinha
conseguido comer nada como um hambúrguer. Fico muito feliz que Lutz e sua
família tenham me ajudado, e me considero muito sortuda de poder ter apreciado
paruburgers com eles.
Mantemos um ritmo constante em direção à floresta,
conversando sobre culinária ao longo do caminho. Conversar enquanto caminhamos
tornou a longa jornada na verdade meio agradável, mas assim que atingimos a
floresta todo o cansaço me alcança de uma só vez, caindo sobre mim como uma
onda. Enquanto todo mundo sai para começar a procurar, sento eu mesma em uma
pedra de tamanho considerável e tento recuperar o máximo da minha resistência quanto
possível. Enquanto eu sento na minha pedra, agachada e respirando em breves,
ásperos suspiros, Lutz se aproxima, obviamente preocupado.
Ele me dá um tapinha nas costas. “Maine, você vai precisar se
acostumar a vir aqui afora. Caso contrário, será um grande problema quando Fey
e Tory terem seus batismos.”
“…Por que ...isso?” Eu suspiro.
Certamente estou ciente de que Tory está prestes a ser
batizada. Afinal, ela tem roupas novas para a ocasião, e eu ajudei a fazer
alguns ornamentos de cabelo para ela. Eu, no entanto, não estou muito certa do
que acontece depois da cerimônia.
“Depois que ela for batizada, ela começará seu aprendizado,
certo? Então isso quer dizer que você terá que vir aqui sozinha por metade da
semana.”
Meus olhos se arregalam quando Lutz explica a situação. Quando
Tory iniciar seu aprendizado, terei muito menos ajuda dela quando se trata de
muitas coisas que faço todos os dias.
“O... o que eu faço? Eu não tinha realmente pensado nisso...”
Maine pode ser fraca, mas sua vida tem sido bastante
agradável graças ao fato de Tory ser uma irmã mais velha tão confiável. Se
Maine precisava de alguma coisa, ela sempre poderia incomodar Tory por isso.
Sem a Tory aqui, eu não acho que vou conseguir viver. O sangue drena do meu
rosto enquanto eu sento em silêncio e entro pânico. Lutz, no entanto, ri,
coçando o nariz.
“Heh heh, bem, quando Tory se for, eu posso te ajudar no
lugar dela. Você ainda é tão fraca!”
“Obrigada, Lutz. Estou realmente feliz por sua ajuda.”
“Ah... Bem, eu tenho que ir procurar lenha, então você deveria
só ficar aqui e descansar.” Ele ajusta sua mochila, e depois se vira para ir
embora. “Se você não conseguir voltar para a cidade, estaremos com grandes
problemas, você sabe!”
Lutz se afasta, indo mais fundo na floresta. Depois que os
passos dele se desvanecido na distância, eu olho ao meu redor para ter certeza
de que não há ninguém por perto, e logo vou ao chão, puxo minha pá improvisada,
e me preparo para começar minhas escavações.
Hoje, meu objetivo era chegar até a floresta e voltar sem
ficar doente. Contudo!! Eu fui o
caminho inteiro até aqui, para a floresta, finalmente! É mesmo possível eu ir
para casa sem sequer tentar desafiar esse obstáculo? Absolutamente não! Cave!
Cave! Cave até você não poder mais cavar!
Estou esperando encontrar um solo argiloso, mas o quão fundo
eu vou ter que cavar para encontrá-lo? Assumindo que a composição do solo aqui
é como era de volta na Terra, eu deveria ser capaz de encontrar algum se eu cavar
abaixo uma quantidade considerável.
“Hi-YAH!”
Com todo o meu poder, empurro minha pá profundamente no
solo. Infelizmente, esse pedaço de madeira vagamente com forma de pá apenas
consegue chegar a um centímetro adentro.
Isso é sólido! Uh... eu realmente consigo cavar aqui?
Isso sente como se eu estivesse tentando desenterrar a terra
compactada embaixo de um campo esportivo bem usado. Eu tinha essa imagem na
minha mente do solo de uma floresta ser muito mais úmido e solto do que isso.
Eu me sinto um pouco traída.
É realmente que o solo que é muito duro, porém, ou é esta pá
que é terrível? ...Sim, estou apostando que é a pá.
Tem um mundo de diferença entre o meu conceito de como uma pá
deveria parecer e essa coisa. Eu
queria algo feito de metal, pelo menos, não de madeira! Independentemente disso,
porém, não importa se a pá é feita de madeira, ou se o solo é muito duro ou muito
macio, abandonar isso não é uma opção. Mesmo se o progresso vá ser lento, que
escolha tenho senão continuar cavando?
Raspando, raspando, raspando, raspando…
Minha pá de madeira descasca lentamente as camadas mais
altas de terra. Desenterrar minha argila vai levar muito tempo, paciência, e
força, e realmente não parece que vou conseguir fazer isso em apenas um dia.
Parece que fazer tabletes de argila irá ser um trabalho bem sério. Só posso
rezar que seja mais fácil do que minha tentativa de fazer pseudo-papiro.
Raspando, raspando, raspando, raspando…
Pela hora em que chego a talvez cinco centímetros de
profundidade, ouço os passos de alguém se aproximando atrás de mim.
“O que diabos você está fazendo, Maine?” diz Lutz ao se
aproximar, ambas as mãos cheias de gravetos e galhos. Seus olhos se arregalam
quando ele me vê sentada no chão, cavando com a minha pá. “Você prometeu que ia
ficar parada e descansar se te levássemos conosco para a floresta, não era?!”
Eu certamente prometi isso quando estávamos saindo, mas não
havia maneira que eu poderia me sentar parada quando meu alvo finalmente estava
bem na minha frente. Eu estava planejando parar antes do Lutz voltar, mas uma
vez que comecei, eu apenas não consegui parar.
... O, o que eu faço?
Eu consegui enganar meu pai com um sorriso e um abraço, mas
Lutz e Tory foram especificamente nomeados meus guardiões. Eu não conseguirei
enganá-los tão facilmente. Sei por experiência que se eu tentar, isso só me
fará parecer mais suspeita, e eles iriam acabar me fazendo perguntas ainda mais
diretas.
“Ah, ammm... Você vê, Lutz,” eu gaguejo.
“... Eu vejo o que?”
Lutz franze a testa, coloca suas mãos nos quadris, e me olha
severamente. Meu interrogatório começou. Bem então. Se eu lhe disser a verdade,
ele ficará bravo comigo por não ter pensado bem nas coisas, e se eu mentir, ele
verá isso e ficará bravo comigo por mentir para ele. Qual dessas opções é a
menos prejudicial?
“Eu tenho bastante certeza de que te disse que você precisa
estar descansando, então o que diabos você estava fazendo?” ele exige.
“... Hã, hahhh! Eu estava cavando um buraco!!”
A verdade sai da minha boca enquanto minha vontade desmorona
sob a aura imponente de Lutz.
Na verdade eu tenho muito medo dele ficando com raiva de
mim. Eu estou bastante dependente dele agora. Se ele sair de raiva, eu não vou
conseguir voltar para casa antes que os portões se fechem.
“É, eu posso ver isso.
Você está cavando para que?”
Mesmo que eu tenha respondido honestamente, Lutz parece duas
vezes mais irritado agora. Ele olha para mim de cima, seus olhos frios como
gelo.
“Bem, huh, você vê... eu quero um pouco de ‘argila’.”
“Hã? Você quer um pouco do que?”
Lutz inclina a cabeça para o lado, incapaz de entender do
que estou falando. Sua expressão se torna um pouco mais duvidosa, e
aparentemente um pouco menos zangada.
“Quero um solo que é realmente denso e sólido, do tipo aonde
a água não escorre.”
“... Se você quisesse isso, não haveria muito mais por lá,
onde não há muitas árvores e grama?”
Se o solo tem pouca drenagem, é difícil para as plantas
crescerem lá. Eu acho que seria mesmo muito mais eficiente procurar por um
lugar com menos plantas.
“Obrigada, Lutz!” Eu digo, imediatamente me levantando para
sair.
“Ei! Maine, espera!”
Lutz estende a mão e me agarra pela nuca antes que eu possa
fugir. Ele tem ambos tamanho e força melhores que o meu, então não há como eu escapar.
“Me deixa ir, Lutz.”
“Seu trabalho hoje é descansar, Maine. Você não esteve
ouvindo?” ele diz, puxando minhas orelhas. “Isso não é algo que você precisa
correr e terminar literalmente agora, certo?”
“Ai, ai, ai!” Abalada, agito meus braços ineficazmente
enquanto choro. “Eu não preciso disso para viver! Eu só realmente quero, então eu
não ia incomodar ninguém para me ajudar a consegui-lo!”
Lutz solta minhas orelhas, e eu imediatamente bato minhas
mãos sobre elas, olhando para ele com olhos lacrimejantes. Ele hesita, só por
um pouco, embora eu não saiba se é porque ele não consegue vir com uma bom
contra-argumento ou porque está com medo do poderoso amor que mostro pelos
livros apesar de não ser realmente materialista de outras maneiras. O
importante, porém, é que essa é uma abertura que meus instintos estão me
dizendo que não posso deixar passar. Agora é minha hora de atacar!
“Se você me fizer ficar parada aqui, você vai desenterrar
por você mesmo?!”
“... Na verdade eu juntei minha parte da lenha hoje, então
eu posso fazer isso. Então, Maine, sente-se e seja boazinha.”
Estou chocada com essa resposta completamente inesperada.
Meu queixo cai, e eu não posso fazer nada além de olhar fixamente para ele. Ele
deveria ter me criticado pelo que acabei de dizer, mas… esse cara é um idiota?
Ele certamente tem coisas mais importantes a fazer do que me ajudar a trabalhar
em um projeto que ele não tem interesse algum. Em vez de desenterrar argila,
ele não deveria estar coletando algo?
“Lutz, hã, estou feliz que você queira ajudar, mas você não
tem suas próprias coisas para fazer?”
“Maine, você é bem fraca e não há jeito que você vá
conseguir cavar aquilo, então eu vou fazer isso por você. Você pode me pagar devolta
dizendo para que isso é necessário e o que você quer fazer.”
“…Porquê, porém?”
“Bem, se eu souber o que você quer fazer com isso, então eu
posso te ajudar a evitar de fazer algo inútil. Agora mesmo, mesmo que você
soubesse exatamente o que você queria, estava cavando no lugar errado, sabia?”
Ai, bem no meu ponto fraco.
Embora eu saiba com certeza o que estou procurando, eu não sei
as palavras para isso nesse idioma, não sei como as coisas podem parecer
diferentes do que no Japão, e não tenho as ferramentas que eu preciso. Há
muitos lugares onde eu posso ir errado. Após essa explicação, eu
definitivamente entendo agora como seria útil ter a ajuda de Lutz nesse
projeto, mas ainda não realmente sei qual é a motivação dele.
“Por que você quer me ajudar assim?”
“Hm? Você me fez parucakes quando eu estava super, super com
fome daquela vez, não é? Eu decidi ali mesmo que precisava te ajudar no futuro.”
Hã? Desse jeito assim? Aquilo foi tudo que precisou para ele
cavar um pouco de argila para mim? Uau, eu não devo subestimar o poder de
comida saborosa.
Para ser perfeitamente honesta, não tenho ideia do que está
acontecendo na cabeça do Lutz que faz ele igualar panquecas a trabalho pesado,
mas até o que me diz respeito, ele é um salva-vidas. Lutz se ofereceu para
ajudar por sua própria vontade e sem reservas, então é claro que eu aceito. É
fantástico que eu tenha alguém a quem confiar o trabalho pesado.
“... Ok, vou deixar isso nas suas mãos,” eu digo. “Eu
esperarei aqui.”
“Ok! Eu só preciso terminar isso bem rápido.”
Num instante, ele recolhe sua lenha e a arruma. Muito
rápido, de fato. Então, ele me leva até onde ele acha que a drenagem do solo é
ruim, em um baixo, inclinado ponto no chão da floresta.
“Deveria estar por aqui,” ele diz, puxando a pá que eu
trouxe comigo. Ele empurra o implemento de madeira, parecido com uma espátula,
para a terra e começa a cavar.
“Maine, você trouxe essa pá até aqui. Essa coisa de escavar
não é apenas um impulso, é? Você estava pretendendo manter sua promessa?”
“Hã!? B... Bem, uh... Ummm, eu finalmente pude vir aqui, e eu
só mal podia esperar mais. Então eu acho que planejei isso... ”
Com o rosto tremendo, Lutz apunhala a pá profundamente no
chão com toda a sua força em uma explosão repentina de emoção.
“Porcariiiia, eu não estava prestando atenção suficiente.
Parecia que você ia ser boazinha!”
“É, mas... Meu pai estava prestando ainda menos atenção.”
“Seu pai é muito mole com você!”
Lutz, alimentado por sua raiva, rasga a terra, apesar do
fato de estar usando a pá de madeira que eu mal consegui fazer qualquer
progresso com. Ao contrário da raspagem lenta e constante que eu estava
fazendo, Lutz bate no chão, arrancando pedaços de terra com cada golpe. Isso é
uma maravilha de se assistir.
Essa é apenas a diferença de força? Ou é a maneira que ele
está fazendo isso? Existe um truque nisso?
“Hã? A cor da terra é diferente aqui embaixo?”
Lutz escavou cerca de quinze centímetros abaixo até uma
camada em que a terra tem uma cor diferente.
“É isso que você quer, Maine?” ele pergunta, segurando um
pequeno pedaço de terra, que eu tiro dele.
É gelado ao toque, denso, e pegajoso, e muda de forma quando
tento moldá-lo com os dedos. Não há engano, esse é exatamente o tipo de argila
que eu estava procurando.
“Sim, é isso! Uau, Lutz, você é tão forte! Isso me levaria
uma eternidade para fazer.”
“Eu definitivamente não sou tão fraco quanto você, pelo
menos,” diz ele, enquanto continua a cavar mais argila.
Meus olhos brilham de emoção quando começo a transportar a
pilha crescente de argila, pouco a pouco, até uma pedra próxima. Quantos
tabletes eu vou conseguir fazer com isso? Eu ainda estou só pensando no futuro,
mas já estou começando a me apaixonar por esses pedaços de argila.
“Então, o que você vai fazer com isso?” ele pergunta.
“Hehehe, eu vou fazer alguns tabletes de argila.”
“ 'Ta-ble-tis de ar-ji-lah'? ”
“Sim!”
Eu aperto e estico a argila, o esforço de Lutz dado forma,
no formato de uma fina de tábua de argila. Quando termino de me alonga-lo em
forma, pego um graveto fino do chão, e começo a escrever os contos de fadas que
minha mãe no Japão costumava me contar.
Eu realmente queria escrever isso no idioma local se pudesse,
mas as coisas que Otto tem me ensinado são tudo vocabulário de alto nível
necessário para o trabalho. Eu provavelmente já posso escrever um texto padrão
para o título de um nobre ou uma carta de apresentação por agora, mas ainda não
conheço nenhuma palavra que seja realmente útil em circunstâncias comuns. Por
enquanto, continuarei escrevendo em japonês.
“Maine, são essas palavras que você está escrevendo?”
“É, elas são. Se eu gravar tudo em um documento como esse,
então se eu esquecer algo no futuro eu posso ler isso para lembrar. Documentos
são incríveis, você sabe! Se eu escrever bastante dessas coisas assim, aí posso
reuni-las em um livro, o que é ainda mais incrível. ”
“Ahh......”
“Lutz, muito obrigada por me achar essa argila! Se tem algo
mais que você precisa coletar, pode ir fazer isso, ok? Eu vou só ficar aqui e
escrever.”
“Entendi.”
A história que estou escrevendo agora parece que deveria ser
titulada “O Sapateiro e os Elfos, Edição Universo Alternativo”. Tento espremer
o máximo de caracteres em cada tabua que puder, mas no final me leva quase dez
tabletes para terminar a história.
“Tudo bem, eu consegui!”
No final da página, escrevo o caractere para “o fim”, tremendo visivelmente de emoção. Eu giro, jogando minhas mãos no ar em alegria.
Tabletes de argila são incríveis! Tabletes de argila são
realizáveis! Três aplausos para grande civilização antiga da Mesopotâmia!
Uma vez que eu chegar com esses em casa, posso aquece-los no
fogão. Se eles não quebrarem e desfazerem, então realmente estarão completos.
Seguro o graveto de escrever com força no punho e depois me viro para olhar aos
meus tabletes espalhados.
“Gyaaaaaaaaaaaaaah!”
No instante seguinte, minhas mãos estão coladas nas laterais
do meu rosto, a boca escancarada, parecendo muito com aquele O Grito. 1 Todo o
sangue drena do meu rosto quando percebo a situação quase inacreditável que
vejo diante de mim.
“O que há de errado, Maine?” pergunta Fey, parado na minha
frente.
“V... Você pisou neles! Eles estão todos... Esmagados ! B...
Buaaaaaah!!”
A primeira metade, a inteira primeira metade, da história
que escrevi com tanto cuidado e meticulosidade, foi completamente esmagada
pelas pegadas de Fey e seus amigos. Eles não são mais reconhecíveis como
tabletes, e é claro que a escrita neles é completamente ilegível.
“Eu... acabei de terminar aquilo... depois de tanto
trabalho... isso!” Eu soluço, mal sufocando as minhas lágrimas. “Você não sabe o
quanto esforço eu pus para finalmente sair até aqui?! Eu coloquei! Tanto!
Tempo! Tentando fazer esse absurdamente frágil corpo forte o suficiente para
fazer isso, me arrastei por todo tipo de dor, e eu realmente pensei... Aaah, eu
até arrastei o Lutz e a Tory para isso também, e ainda! Eu finalmente terminei
isso, finalmente consegui, e depois o que?! Existe alguma coisa nesse crânio
seu? Seu cabelo é rosa porque seu cérebro é estufado cheio de flores?! Idiota!
Idiota idiota idiota! Buaaaaaaaah!!”
Eu começo a chorar em uma demonstração emocional tão ridícula
que eu, que era suposta a ter a estabilidade mental de um adulto, deveria ter
vergonha. Não consigo parar de soluçar, não consigo parar minhas lágrimas de
cair. Se você deixar de lado minha suposta maturidade emocional, todavia, é
exatamente assim que uma menininha muito angustiada deve ser.
Tendo me ouvido gritar, Tory corre com os olhos arregalados
e preocupados. Ela rapidamente pergunta ao redor para descobrir qual é a
situação atual, então se agacha ao meu lado, passando um braço reconfortante ao
meu redor.
“Maine, não há necessidade de chorar assim. Eles não
pretendiam te machucar, sabe?”
Não importa se eles tiveram más intenções ou não, isso não
vai mudar o fato de meus tabletes terem sido esmagados em pasta. Não importa o
que Tory diga, não há como diminuir meu ressentimento, minha raiva, ao ver o produto acabado que eu havia
finalmente conseguido ser esmagado bem na minha frente.
“Não! Eu nunca os perdoarei!”
Lágrimas e ranho escorrem pelo meu rosto, mas levanto minha
cabeça para dar a um Fey aterrorizado meu olhar mais ameaçador. Lutz
gentilmente me dá um tapinha nas costas.
“Você pode fazê-los novamente, certo?” ele diz. “Eu ajudo, e
esse pessoal quer compensar por isso então eles vão ajudar também, não é?”
“Ah, sim!” exclama Fey. “Nós vamos ajudar. Eu realmente
sinto muito.”
Fey e seus amigos acenam com a cabeça vigorosamente, não
discordando de Lutz de maneira alguma.
“... Ok”, eu digo. “Eu vou faze-los de novo.”
Eu fui capaz de fazer esses tabletes uma vez, então tenho
certeza de que estou no caminho certo. Tabletes de argila são muito mais fáceis
de fazer do que papiros, e estou satisfeita com o resultado final.
No entanto, tenho certeza de deixá-los com um aviso.
“Não haverá uma segunda vez.”
Se essas crianças estão mantendo uma lista de pessoas para
não se irritar, tenho certeza de que pulei para o topo dela.
Notas da tradutora para este capítulo:
1. O Grito, pintura de Edvard Munch.
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